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O poeta António Aleixo, cauteleiro e guardador de rebanhos, cantor popular de feira em feira, pelas redondezas de Loulé, é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia. António Aleixo é sem dúvida nenhuma um poeta que extravasa em muito a restrição que o cataloga como poeta popular. É talvez um dos grandes poetas deste século pela jactância, pela sua capacidade de improviso e pela sua visão do mundo que, nesta curva do milénio, continua a ser o mesmo. Neste sentido está ao mesmo nível de dois outros grandes poetas que com uma cultura mais erudita, também se distinguem nesse aspecto: o Fernando Pessoa e o Vitorino Nemésio.
Efectivamente, graças a um intelecto poderoso, António Aleixo conseguiu trabalhar as palavras ultrapassando a sua formação académica bastante rudimentar e as múltiplas limitações da sua saúde vacilante. Uma situação a que se refere uma das suas ultimas quadras, recordada pelo irmão de Tossan, Armando dos Santos:
Quando em mim penso com calma 1899 – 18 de Fevereiro – às 4 horas da manha, nasce António Aleixo, na freguesia e concelho de Vila Real de Santo António, filho de José Fernandes Aleixo, tecelão, e de Isabel Maria Casimiro, de ocupação domestica, naturais, ele da freguesia de S. Clemente, vila e concelho de Loulé, e ela de Vila Real de Santo António, onde se receberam e são paroquianos e residentes na Rua do Príncipe, neto paterno de António Fernandes Aleixo e de Francisca de Jesus e materno de Silvestre Casimiro e de Maria da Encarnação. Foram padrinhos Domingos Samídio, marítimo, casado, e sua filha, Luísa SamÍdio, solteira. Foi baptizado aos 24 dias do mês de Junho do ano de 1899, na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Encarnação de Vila Real de Santo António 1906 – Os pais de António Aleixo transferem-se para Loulé 1907 – António Aleixo começa a frequentar a escola. Aprende as primeiras letras 1909 – Depois de dois anos de escola, primeira revelação do talento de improvisador a cantar as janeiras 1912 – Aprendiz de tecelão, o oficio do pai. De 1912 a 1919 é a pratica do ofício. Como cantador de improvisos, em festas, por convite de amigos, às vezes retribuído, vai treinando o seu jeito para versejar (ou versar, como ainda hoje se diz, na gíria popular dos poetas espontâneos) 1919 – Apurado para o serviço militar, em Faro 1920 – 18 de Janeiro – soldado no Regimento de Infantaria 4 29 de Abril – dado como pronto da instrução de recruta- passa à classe de soldado aprendiz de corneteiro 1922 – Alistamento na polícia, em Faro. É o guarda n.º44 um aumentado ao efectivo deste corpo de policia, como guarda de 2ª, em 7 de Julho, sendo comissário o cidadão Carlos Augusto Lyster Franco, professor e pintor 1923 – 27 de Novembro – louvado pelo mesmo comissário de polícia 1924 – Casamento, em Loulé 1928 – 1930 – Ida para França como servente de pedreiro 1931 – Regresso a Portugal 1931 – 1933 – Residência em Loulé. É cauteleiro e vende gravatas 1937 – Classificado em 4º lugar nuns jogos florais em Faro, no Ginásio Clube 1939 – 1940 – Um amigo do poeta, José Rosa Madeira, junta algumas quadras, em duas folhas de papel. Vão ser o núcleo do seu primeiro livro Quando Começo a Cantar… 1940 – Operação ao estômago, em Lisboa 1943 – Lançamento do primeiro livro, começando a vender no dia 25 de Abril, domingo de Páscoa, por iniciativa do Circulo Cultural do Algarve
– Maio – Primeira referência à publicação de Quando Começo a Cantar… em artigo de Cândido Marrecas no jornal de Beja 16 de Novembro de 1949 – Morte de António Aleixo. O poeta fica…
Obras completas de António Aleixo QUANDO COMEÇO A CANTAR… – 1ª Edição, Faro, 1943; 2ª edição, Coimbra, 1948; 3ª edição, Lisboa, 1960INTENCIONAIS – 1ª EDIÇÃO, Faro, 1945; 2ª edição, Lisboa, 1960 AUTO DA VIDA E DA MORTE (1 acto) – 1ª edição, Faro, 1948; 2ª edição, Faro, 1968 AUTO DO CURANDEIRO (1 acto) – 1ª edição, Faro, 1949; 2ª edição, Faro, 1964 ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO… Volume I, 18ª EDIÇÃO, Lisboa, 2003 ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO… Inéditos – Volume II , 13ª edição, Lisboa, 2003 INÉDITOS – 1ª edição, Loulé, 1978; 2º edição, Loulé, 1979 A vida é uma ribeira; Caí nela, infelizmente… Hoje vou, queira ou não queira, Aos trambolhões na corrente. Crês que ser pobre é não ter Pão alvo ou carne na mesa? Mas é pior não saber Suportar essa pobreza! O luxo valor não tem Nos que nascem p’ra pequenos: Os pobres sentem-se bem Com mais pão luxo a menos! A esmola não cura a chaga; Mas quem a dá não percebe Ou ela avilta, que ela esmaga O infeliz que a recebe. A ninguém faltava o pão, Se este dever se cumprisse: - Ganharmos em relação Com o que se produzisse. O homem sonha acordado; Sonhando a vida percorre… E desse sonho dourado Só acorda, quando morre! Quantas, quantas infelizes Deixam de ser virtuosas… E depois são seus juízes Os que as fazem criminosas!... Sem que o discurso eu pedisse, Ele falou; e eu escutei. Gostei do que ele não disse; Do que disse não gostei. Tu, que tanto prometeste Enquanto nada podias, Hoje que podes – esqueceste Tudo quanto prometias… Chegasses onde pudesses; Mas nunca devias rir Nem fingir que não conheces Quem te ajudou a subir! Os que bons conselhos dão Às vezes fazem-me rir, - Por ver que eles próprios são Incapazes de os seguir. Mesmo que te julguem mouco Esses que são teus iguais, Ouve muito e fala pouco: Nunca darás troco a mais! Entra sempre com doçura A mentira, pr’a agradar; A verdade entra mais dura, Porque não quer enganar. Se te censuram, estás bem, P’ra que a sorte te perdure; Mal de ti quando ninguém Te inveje nem te censure! |
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última actualização, 02 Janeiro 2009
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